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Chove tanto lá fora como cá dentro

Dias cinzentos por fora e por dentro. Cheios de dúvidas, de incertezas, de medos. Dias que nos comem as entranhas e nos deitam abaixo. Dias de telefonemas sem resposta e de reconhecer que falhamos. De estar de mal com a vida, de olhar para trás e procurar a sorte no meio do esforço, quase inexistente. Dias em que somos vítimas dos nossos próprios pensamentos, dias de casa vazia e espera, muita espera. Muitas tripas feitas em coração para acreditar no melhor. O nosso melhor. Que brinca connosco às escondidas em dias de chuva. Perceber o que nos vai fazer falta, o que nos vai enfraquecer. Dias em que choramos sozinhos, debaixo dos lençóis, em que a comida sabe a terra. Em que a realidade nos esmaga com a força de todos os sonhos por alcançar. Dias triste, tristes, tristes. Hoje é um dia triste, lá fora transparece o que vai cá dentro. Que passe depressa.



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O dia em que fui despedida

Acredito que não conseguimos escapar ao que o futuro nos reserva. Quando me licenciei estive seis meses em casa e nunca, em qualquer outra altura, os azulejos da casa de banho estiveram tão limpos. Meti mãos à obra, entreguei dezenas de currículos presencialmente que não deram em nada. Fui chamada para um estágio não remunerado, durante três meses apanhei o comboio das seis da manhã e voltei para casa no das onze da noite. Sempre acreditei, sempre trabalhei, sempre à espera da oportunidade de uma vaga prometida desde o primeiro dia. Não aconteceu. Mudei-me de armas e bagagens, sem medos, cheia de vontade, para uma casa a trezentos quilómetros da minha família e dos meus amigos. Trabalhei, fiz turnos, fiz noites, vivi uma vida que não era a minha. Abri um hospital com uma equipa de raíz, fui técnica, enfermeira, recepcionista, auxiliar, coordenei entregas e requisições de material. Ao fim de quatro meses fechei esse mesmo hospital e mais uma etapa na minha vida. Recebi um telefonema que me fez vir para Lisboa, e numa semana morava numa casa partilhada na Avenida de Roma. Fui aceite numa multinacional, até hoje. Até hoje e depois de 80 mil quilómetros conduzidos, de mil e uma formações na Alemanha, de formações em sítios inóspitos, de muito sacríficio e esforço a nível pessoal. Hoje fui despedida. Hoje fecho mais uma porta. Aprendi muito, especializei-me, viajei, tornei-me mais tolerante, mais profissional. Cresci enquanto pessoa, sorri quando me apetecia chorar e calei-me quando queria gritar que o mundo fosse à merda. Hoje é o último dia de quatro anos a puxar por mim, a superar-me, a fazer pelos outros o que nunca fizeram comigo. Hoje digo adeus a uma empresa que nada tinha a ver comigo. E agora tenho a vida toda pela frente. Tenho planos para alinhavar, prioridades para estabelecer. Vou arregarçar as mangas e fazer o que tem de ser feito. Vou bater às portas, vou tentar tornar sonhos em realidade. Mas acima de tudo acredito que o destino nos supera sempre. Por muito boa vontade e muito esforço. Por mais que o nosso pensamento seja sempre positivo. Hoje é o primeiro dia da mudança. Eu vou fazer a minha parte. Ouviste Universo? Está na altura de fazeres a tua também. 


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Três meses em oitenta anos

O síndrome de filho único / primeiro filho é difícil de gerir. Somos os únicos, os primeiros, os centros das atenções. São pesos de uma vida, muitas vezes aquela que não se quis, sobre os nossos ombros. Todos os desejos, orgulhos, medos, todos os olhares se viram para nós. Somos os que abrimos a porta à puberdade, adolescência, juventude e temos de quebrar barreiras, esticar a suposta "desobediência" até à liberdade adulta. E é aqui que as decisões de tornam difíceis de aceitar. Muitas vezes até de suportar. Tudo está certo e planeado na nossa cabeça, mas ao dizê-lo em voz alta a realidade atropela-nos a mil à hora. Duvidamos, trazemos todo o medo à flor da pele, perdemos o apetite, começamos praticamente a aceitar a derrota. É a nossa vida por um fio. É o futuro incerto e a vontade a correr nas veias. Serão três meses suficientes para nos derrotar? Serão três meses, numa vida de oitenta anos, a nossa desgraça? A nossa perda de capacidades? O nosso ponto final? Confiamos em nós para ficarmos por nossa conta e risco? Porque aos oitenta anos, sentados no sofá da sala vazia e fria, com a família longe e a sopa a aquecer no fogão, é tudo o que nos vai restar. A memória do que vivemos, do que fizemos, as decisões contra tudo e contra todos, os nossos sonhos realizados, a nossa viagem pelo mundo.
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Obrigada ♥

A vida precisa sempre de um empurrão. E a intuição que temos cá dentro trata do resto. Há cerca de um ano fui atrás da minha e participei no primeiro workshop de fotografia e gestão de tempo das queridas Catarina e Sofia. Não sabia bem ao que ia, o que conhecia de máquinas fotográficas resumia-se ao botão de disparo e ao review e a única organização que tinha era uma agenda em papel com metade das folhas vazias. 
A Catarina deu-me a conhecer tudo o que hoje uso nas minhas fotografias, levou-me a comprar lentes novas e a expor as imagens que tanto prazer me dão a registar no blog. Foi através dela que desenvolvi este hobby que me enche as medidas e que me traz paz de espírito.
A Sofia ensinou-me a dizer não, a organizar os dias e as semanas e sobretudo, a estabelecer prioridades. Continuei, como já antes fazia, a ler a Catarina e a Sofia todos os dias, a seguir-lhes as palavras, as mudanças de casa e os pensamentos que partilham connosco. Assim como um aluno segue o seu mestre, mesmo à distância. A Sofia faz-me sonhar que tudo é possível, que devemos acreditar no nosso potencial, que devemos seguir em frente por mais que nos empurrem para trás. Que existem momentos certos. 
Há dias que sentia a necessidade de sair do anonimato, que faltava humanizar este cantinho mais um bocadinho, que precisava de vos mostrar mais de mim. E assim que tomo essa decisão e que dou um passo em frente, recebo uma mensagem da querida Raquel. 
A Raquel, que tem a força do mundo dentro dela, que escreve coisas tão acertadas e tão despretensiosas, a Raquel que juntamente com os We Blog You lançou o desafio que agora me traz alguma visibilidade, mas que acima de tudo me faz querer ser cada vez melhor. 
E a Raquel e a Sofia escreveram sobre mim. Viram em mim aquilo que me custa a aceitar, a maior parte das vezes. Que há pessoas que se identificam comigo, que gostam de me ler, que me visitam e que me fazem tão feliz por estarem desse lado.

E eu fico assim meia sem jeito por ter pessoas tão especiais a dar-me atenção e a dizerem coisas maravilhosas a meu respeito. E quero dar-lhes o maior beijinho do mundo e dizer-lhes todos os dias, obrigada, obrigada, obrigada♥

À Catarina vou agradecer-lhe do fundo do coração estar ao meu lado num dos dias mais felizes da minha vida, assim epero :)
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Dar tempo ao tempo

A nossa lista não tem fim. Tem muitas letras e muitas imagens. Muitos estados de espírito. Muitos quilómetros. Mas é nossa. Preenche-nos os serões e as viagens de carro. Preenche o vazio do dia-a-dia. O meu medo é que esta vida não seja suficiente. Que fique a meio. Medo de desperdiçar os dias com futilidades e as noites mal dormidas com sonhos desfeitos. Mas só assim fazemos sentido. Os teus planos e os meus. Lado a lado. O Japão e a América do Sul. A mochila às costas e a máquina analógica. Os azulejos da cozinha e a comida vegetariana. A Costa Rica e o marisco em Cabo Verde. A casa no Parque das Nações e nas Avenidas Novas. Os dois cães e um jardim. O casamento num Palácio e três bebés. Os fins de semana na costa alentejana e as corridas no paredão. A plantação de canónigos e as ilhas Gregas. Tantos sítios para conhecer, tanto por onde crescer. Tanto para viver. Por favor tempo, abranda. Tanta pressa para quê?


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Trocar as voltas ao tempo

Vamos trocar as voltas ao tempo e fazer deste fim-de-semana o melhor dos últimos tempos. Com tempo para o sofá, as mantinhas, a sopa e o bolo. Encher a casa de cheirinhos bons e olhar para a chuva que cai lá fora, mas que não toca o nosso coração. Vamos ver comédias românticas, muitas. E dar beijinhos, muitos. Porque o tempo tem sido tão apressado connosco. E este fim de semana preciso de parar e olhar para ti. Quero gravar-te nos meus olhos para quando estivermos longe.

Bom fim-de-semana ♥
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Atravessar oceanos





Mimos que atravessam oceanos para chegar ao outro lado do mundo. Este peixinho veio a nadar da Austrália até Portugal. Embalado por conversas perdidas a meio da noite, passagens rápidas no skype e muitas muitas saudades do que já fomos juntas. Vai ser o meu amuleto. O simbolo de que mesmo longe, a amizade é o que nos salva a vida. O que nos rasga sorrisos ao chegar a casa depois de uma semana fora. A vontade que tenho de agarrar neste peixe e mergulhar nas águas frias para ir ter contigo e abraçar-te é ainda maior que ontem. E é, com certeza, mais pequena que a de amanhã.

Afinal, you are my person, lembras-te?
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Bem-vindo 2014 ♥

Começar de novo e da melhor maneira. Finalmente ter a reacção positiva que tanto esperei. Olhar para Janeiro com uma nova força, uma nova vontade, uma energia mais positiva e renovada que só os recomeços nos trazem. Sair da confusão em que me deixou 2013 e entrar não com o pé direito, mas a pés juntos. Entrar de corpo todo, com cabeça tronco e membros. Fazer Lisboa de uma ponta à outra com o verde a guiar-me ao reencontro de uma pessoa que tanto me diz. Que tanto me aconselha. A minha referência desde muito cedo e talvez para sempre. Ser recebida de braços abertos e em modo total de compreensão. Sentir-me rejuvesnescer e renovar a cada palavra, a cada gesto. Regressar às minhas origens e conseguir distinguir um futuro no meio da névoa para onde me lancei. Porque acredito sempre nas nossas acções, nas palavras que dizemos e no caminho de tomamos. Acredito sempre que o melhor ainda está para vir, que a vida se encarregará de nos dar aquilo que merecemos depois de tanto esforço e dedicação. E hoje acreditaram em mim. Deram-me a mão, devolveram-me os sonhos, o sorriso e a coragem. Clarificar objectivos e estabelecer metas, é o próximo desafio. Porque a vida só agora começa a fazer sentido, só agora ganha contornos nítidos e luzes coloridas. E no meio de um dia tão cinzento, vi o arco-íris. Vi o que quero. O que me disponho a fazer. O que me vai lançar da maior aventura de começar o meu caminho para ser ainda mais feliz. O melhor, como dizem, fica sempre para o fim. O fim ainda está longe, tenho noção do quanto vou esforçar-me para consegui-lo, dos passos que terei de dar, dos quilómetros, anos, meses, o que for preciso. Porque o melhor fica para o fim. E eu acredito que este é o início de um novo ciclo.

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E não é que a motivação está mesmo aqui?

Escrever. É o que me alimenta. São as raízes do que me orienta e as asas que uso para voar. Voar por cima da imundice que inunda a cabeça de pessoas com quem tenho de me cruzar na vida. Talvez por pouco tempo. Porque hoje cresci. Hoje sou ainda mais eu do que era ontem. Não há melhor na vida que o sítio entre a espada e a parede para perceber exactamete onde queremos estar. O que queremos dizer. Com quem não queremos deperdiçar o melhor de nós. E eu tenho tanto. Todos temos tanto de bom. O bom de ouvir, de nos dedicarmos a alguém, de partilhar, de nos auto controlarmos. Hoje foi o dia em que me superei. Em que não caí em desgraça. Em que imaginei asas nas costas e voei por cima de mentes reles e medíocres que insistem em manter-me debaixo da terra. Foi o ponto de partida para a descolagem. Para novos rumos. Novas ideias. Um vida nova. Com muito pouco ou quase nada. Com muito trabalho pela frente. Com muito medo de começar. Com muita vontade de mudar. Hoje abri os olhos até às costas. Vi que lá atrás estão anos desperdiçados a tentar falar uma língua que não é a minha. Motivação? Cresce todos os dias dentro de mim. Amanhã vai ser maior que ontem. Motivação para seguir em frente sem olhar para trás. Para os sonhos que foram ficando pelo caminho pelo bem dos números na conta bancária. Motivação. São vocês que a alimentam. São vocês que vão ficar sem ela. Parabéns pelo vosso trabalho.


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Recados para ti

Há dias em que te sinto mais. Outros em que passas por mim só de raspão. Quando me olho ao espelho de manhã, de olhos entreabertos de sono, e sinto aquele vento debaixo do cabelo, és tu. Às vezes acordas-me com gelo nos pés durante a noite, deixas-me meio desamparada e custa-me voltar a adormecer. Passam horas, minutos ou apenas segundos quando me lembro de pensar em ti, senão o faço, obrigas-me a isso. Tens as tuas memórias bem guardadas no meu coração, nas minhas palavras e nos meus gestos. Muito devagar apercebo-me que fazes parte de mim, que és metade dos meus dias, que tornas as minhas noites completas. Que ao estar longe, tão longe de ti, não descanso. Estou sempre alerta, a tentar sentir-te, a lembrar-te em tudo o que faço, a relembrar-te que estou aqui. Que acordas e deitas os meus dias. Que vives dentro de mim. Que era só isto que te queria dizer hoje.
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Do tempo que me falta contigo

Queria acrescentar um minuto, uma vírgula, quem sabe uma hora inteira. Queria olhar para trás e esticar o tempo. Tirar dos momentos maus e juntar aos momentos bons. Queria mais um ponteiro no relógio. Só meu. Queria dizer mais palavras. Queria ter dado mais significado aos silêncios. O tempo foi rápido. Como só ele sabe ser. Traz-nos a momentos sem darmos conta que já chegamos. Nem nos apercebemos do que foi dito, feito, do tempo que faltou para evitarmos este momento. Usamos o tempo no pulso, mas nem nos lembramos dele. E ele sempre a andar. Junto ao bater do coração. Sem parar, sem parar, sem parar.
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A recompensa

A aventura começa quando temos de acordar ao lado de outra pessoa todos os dias. Há que manter o amor no seu expoente máximo. Não basta por o despertador, cozinhar e deixar acontecer. Há que manter o entusiasmo dos namoros de fim-de-semana, juntar responsabilidade e família, limpezas do dia-a-dia e ter paciência e carinho para dar ao adormecer. Dá trabalho, dá imenso prazer, traz frutos no futuro e vale a pena. Perceber o espaço do outro, os limites e manter conversas à mesa fazem parte de todos os dias. Mas chegar à cama, com o corpo dorido e a cabeça a rebentar pelas costuras, sentir o calor da outra pessoa e adormecer a sonhar com tudo o quea vida nos reserva é, sem dúvida, o prémio mais recompensador de sempre.
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Será o dia?

Um dia vou ter um jardim e dois pastores alemães. Vou seguir uma família de ursos polares no polo ártico. Vou assar marshmallows numa fogueira ao amanhecer. Vou fotografar os meus três filhos com a luz da manhã aos saltos na minha cama. Vou ser vegetariana. Vou passar a noite de natal junto de uma família desfavorecida. Vou conduzir junto ao mar no inverno durante horas a fio. Vou pegar na minha família e passar o natal numa casa com lareira nos alpes suiços. Vou comprar terra e plantar canónigos. Vou escrever um romance e uma crónica semanal. Vou fazer voluntariado para áfrica durante um ano. Vou chegar a casa com terra debaixo das unhas e galochas enlameadas. Vou adoptar uma criança. Vou usar um vestido elie saab. Vou perder-me num campo de girassóis.

Um dia vou assustar o medo e merecer a coragem.
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Do coração

Há dias em que somos esmagados pelo mundo. Em que tudo parece tão gigante e assustador. Fechamo-nos no roupeiro do quarto, às escuras, e esperamos que o dia acabe. Porque é tudo demais, as criticas, os esforços, o medo, a desmotivação, a falta de carinho, a incompreensão. Olhar dentro dos olhos de alguém que não nos compreende é a sensação mais vazia que podemos ter na vida. É um daqueles momentos em que o mundo começa a abrandar até parar. O tempo pára. Os sentimentos caem no chão frio. A coragem foge a sete pés. A respiração fica pendente no ar. O coração imobiliza-se. O dia deixa de fazer sentido. Porque são as pessoas que nos amam que acabam por nos magoar mais e mais. Que não nos ouvem gritar-lhes ao coração. Que não decifram a mensagem que passamos subtilmente há demasiado tempo, há demasiadas palavras, há demasiados gestos. Que não sabem onde nos procurar quando encontram a casa vazia. Que não se ajoelham para espreitar debaixo da cama. Que não sabem abrir as portas dos roupeiros.
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Este amor, que se cruza comigo todos os dias.

"Eu já me cruzei com o amor. Com aquele amor que nos faz felizes. Não é o amor das angústias. As noites mal dormidas foram vividas em bebedeiras e gargalhadas. Eu já me cruzei com o amor. O amor das expectativas boas. O amor das verdades. Sem jogos. Excepção feita aos do prazer. Eu já me cruzei com o amor. Daquele amor em que somos exactamente nós, com todos os medos e pormenores ridículos. Com todos os defeitos. Somos exactamente o que sempre fomos e mais alguma coisa de bom que passamos a ser. Eu já me cruzei com aquele amor que faz sentido em todos os momentos. Em todos os cenários. Eu já me cruzei com o homem com quem queria andar de mão dada."
 
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É admitir uma doença crónica

Acordo. Estou em água, sinto o coração a bater na garganta e o silêncio envolve-me. Não reconheço onde estou. Escondo as mãos frias, do escuro, por baixo dos lençóis. Tenho os pés gelados e aos poucos venho a mim. E é então que a sinto. Ali, naquele ângulo turtuoso, lancinante, a morder-me por dentro, constante. A dor. Percebo que sustive a respiração desde que ela me acordou. Tento inspirar devagar, mas é como se estivesse a arder por dentro. Tento lembrar-me dos truques de respiração que me ensinaram mas tenho o pensamento nublado de sono. Ouço a tua respiração, descansada, profunda, de um sono pesado e calmo. Levanto-me devagar e vou de pés descalços até à cozinha. Enquanto preparo um chá para me acalmar, peço com força. Peço por tudo. Peço por mim, por ti, pelos meus pais. Imagino uma casa perfeita, no meio de uma montanha, o meu cenário de escape. Bebo o chá aos golinhos pequenos e começo a descomprimir. Doem-me as mãos de as ter contraídas. Aos poucos começo a sentir-me mais eu. O sangue a correr nos pés. A cabeça a pedir descanso. Volto para ti, deito-me quase a levitar. O meu corpo está tão cansado, como se tivesse corrido quilómetros. Ao teu lado, digo-te baixinho para não me abandonares. Que vai ficar tudo bem. Que vou fazer das tripas coração e dar a volta ao mundo contigo. Que vou ser perfeita. E é quando me sinto já a adormecer que a inveja me invade. Sorrateira. A inveja de um corpo saudável. Apresso-me a fechar os olhos e adormeço com uma dor a latejar no coração. Esta, muito mais difícil de suportar.
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Whatever makes you happy

Acho que todos temos direito a uma fase. Daquelas em que nos apetece partir tudo o que está à nossa frente. Nunca atirar o telemóvel pela janela nos pareceu tão certo. Queremos estar no silêncio. Sem moralismos, sem sentidos de responsabilidade. Dar meia volta com o carro, na hora que já levamos de transito às oito da manhã, em contramão. Adormecer no meio de uma reunião tão importante para concluir que na verdade a nossa opinião nunca chegará ao céu.  Comer duas tabletes de chocolate ao jantar acompanhadas de batatas fritas e ir para a cama sem lavar os dentes. Sair do trabalho a meio do dia, conduzir até ao mar e entrar na água gelada ainda vestidos. Mas será isso o suficiente para lavar o corpo e a alma do que não gostamos de fazer? Será esse grito estridente o suficiente para perceber o que queremos? Não. Queremos ir mais longe. Queremos entrar no gabinete do chefe e dizer até nunca mais. Enfiar roupas simples dentro de uma mochila onde parece que cabe o mundo inteiro lá dentro e comprar um bilhete só de ida. Entrar no avião sem saber quando voltamos a pisar esta terra. Levar medicamentos para a malária, para a varíola, para o dengue, para tudo o que seja de terceiro mundo. Levar a esperança de ajudar quem precisa. Ficar um, dois, três, quatro, cinco meses, o tempo que a nossa cabeça pedir num país em que nos sentimos úteis. Viver com o essencial. Percorrer continentes com as unhas sujas e o cabelo por lavar. Sentir a necessidade de conforto na pele e as saudade de casa. Crescer ao reconhecer como o mundo não pode ser mais longe de tudo e de todos. Como somos tão insignificantes no meio disto tudo. Como a vida é volátil e, no fundo, acaba já amanhã.
 
 

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Sinto-me uma princesa

Nada acontece por acaso. A vida já fez questão de me provar isto alguma vezes. Mesmo nos momentos de grande provação, desesperantes, onde a angústia de não conseguirmos ver para lá do muro que nos impuseram mesmo à frente, nos leva a pensar no pior. Quando nos apercebemos estamos rodeados de muros de imposições, como princípes e princesas, presos no nosso castelo, sem poder para reinar. Mas a vida encontra sempre solução. Mesmo que os sonhos estejam à distância dos reinos encantados. Seja ela um princípe montado num cavalo branco, um dragão que no último momento passou para o nosso lado da batalha, ou até uma suricata e um javali. A vida encontra sempre saída. E, a maior parte das vezes, essa solução, essa força, esse factor extra, nem sequer é exterior a nós. Está dentro de nós. Demora o seu tempo, meio adormecido, mas está lá. O difícil é perceber o que ele diz. E o meu, faz mímica.
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O amor que eu escolhi

Passear de mãos dadas contigo, olhar para ti como se fosse a primeira vez, sentir pele de galinha sempre que me tocas, sempre que falas baixinho comigo, ver o mundo desaparecer à tua volta e ficares só tu. Só meu. Só naquele instante, em que tudo é relevante, tudo é minúsculo e insignificante ao pé de ti. Sentir o teu calor na minha mão e o meu coração a arder de ti. Querer ser pequenina para sempre no teu colo, não deixar de olhar para ti nunca, mesmo que a vida nos separe. Mesmo que a felicidade não nos deixe ser ainda mais felizes. Porque vais ser o meu amor número um para sempre. Mesmo que some outros amores ao nosso. Mesmo que o teu amor por mim fique mais pequenino. O meu vai valer pelos dois.

 
 
 
 
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