Onde te imaginas daqui a dez anos?
É, talvez, a pergunta que mais ouvi em entrevistas de emprego. Foi exactamente a mesma pergunta que fiz a mim mesma aos 18. Enquanto entrava na faculdade com o pé direito e o peito cheio de ar e esperança, já sabia onde ia estar daí a dez anos. Quando saí, quando me sentei pela primeira vez do lado vulnerável da secretária, não precisei de parar para pensar. Folheei o meu futuro, imaginei-o, defini-lhe os contornos na minha cabeça. Daí a dez anos teria um emprego estável, estaria na fase de transição para a primeira subida de lugar, teria uma casa minha, no parque nas nações, ajudaria nas aulas da minha faculdade como assistente ou professora de recurso, teria um mestrado e um carro novo.
Dez anos depois aprendi umas das grandes lições da vida. É que entre nós e o que queremos, existem pessoas, existe tempo, existe dinheiro, existem expectativas boas, más e péssimas, existe confiança, existe sorte, existe reconhecimento, frustração e saúde. Entre nós e o que queremos para a nossa vida, existe o mundo todo. Que não pára de girar, que não abranda nunca. E hoje, dez anos depois, quando entro no transporte público que me leva de quinze em quinze dias à segurança social, quando espero nas filas do centro de emprego por uma oportunidade, quando fico semanas à experiência, onde já devia liderar uma equipa, hoje, dez anos depois, percebo a mais importante das lições. Entre nós e o que queremos, existe o mundo todo. A vida toda a acontecer. Existe o destino das decisões que tomamos, o peso das consequências inevitáveis.
Onde te imaginas daqui a dez anos?
É, talvez, a pergunta mais estúpida que nos podem fazer.
Onde te imaginas daqui a dez anos?
Daqui a dez anos não sei. Daqui a dois meses quando ficar sem subsídio e sem emprego também não. Daqui a dez anos não existe o nós e o que queremos. Existe o nós e o que aprendemos a aceitar.