Os dias começam todos iguais. Espera-se que o sol nasça no horizonte e que a terra gire no mesmo sentido de sempre. O leite na mesma taça, arrumada no mesmo armário. A chave roda no sentido dos ponteiros do relógio, as horas andam sempre para a frente, os passos são uns a seguir aos outros. Aos poucos vamos sentindo qualquer coisa diferente, cá dentro. Alguma coisa que nos faz ocupar mais do que um lugar na carruagem do metro, é quase palpável. É transcendente. Apetece partilhar. Olho em volta e quero distribuir toda esta felicidade que nasceu cá dentro. Não há espaço para egoísmos, para compaixões. Há sim, tempo para sorrir, sorrir a quem entra, a quem sai e a quem passa apressado. Há a certeza de decisões tomadas. Gigantes. Do tamanho de montanhas cheias de neve. Do tamanho dos nossos sonhos. Decisões que sempre foram as mais certas, mas que trazem a bonança depois da tempestade. Vamos seguir os nossos sonhos. Vamos transparecer felicidade a quem nos rodeia. Vamos arriscar. Vamos dar uma oportunidade ao mundo para girar de maneira diferente. Para girar ao nosso ritmo. Só para nós. Nem que seja apenas por um dia.
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Ir ou não ir?
Há decisões tão grandes que assustam. Daquelas que nos fazem roer as unhas e ter a perna constantemente a tremer. Decisões de uma vida. De ir ou ficar. De deixar a vida que se conhece para trás. Que nos trazem paz de espírito apenas e só depois de dar o primeiro passo. Falar delas é muito bom, em jeito de brincadeira e sonhos que só nos passam pela cabeça esporádicamente. Mas vê-las ganhar forma diante dos nosso olhos assusta. E o mais estranho é que assusta por ser tão bom de ver. Parece tão errado. Parecemos tão frágeis diante delas. Estamos por nossa conta e risco. Se falharmos voltamos para casa com a sensação de ter arriscado, de não ter ficado com o "e se" preso na garganta pelo resto da vida. O Manuel Forjaz, na entrevista ao Daniel Oliveira, quando já não acreditava que ia sobreviver, disse que a única coisa que mudaria na vida dele seria o facto de não ter ido viajar durante anos de mochila às costas. Diz ter-se arrependido de não absorver novas culturas e conhecer o mundo de uma maneira tão profunda quanto a de viajar sem destino. E eu chorei a ouvir aquelas palavras. Porque sei que se morrer daqui a 5, 10 ou 80 anos é precisamente do que me vou arrepender. Há pessoas que nascem para ver o mundo, para sair dos limites. E eu tenho-me limitado vezes demais.
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